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Marcia Frazão
Escritora, bruxa, anarco-feminista, caótica, visionária, ensandecida, alucinada, caipira pós-moderna, lunática e... brasileira!!!! Mãe do melhor escritor do mundo, Daniel Frazão, que escreveu um livro BÁRBARO, "CERCO", publicado pela editora Rocco e que já está lançando o segundo, "Apenas Um Herói", pela mesma editora.
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Dando um Help para Deus


Quando Deus nos deu a vida, também nos deu a liberdade de darmos vida. Simone, e muitos outros, está precisando de nós. A doação não dói. Vamos doar e espalhar na Net o pedido? Deus certamente nos agradecerá por isso...
Obs: a Simone está no meu facebook . Que tal uma prosinha com ela? Ela é um doce!!!

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Luiza & Mary Stuart

Durante a velhice, Luiza preparou-se para uma outra vida, em que seria rainha ou, na pior das hipóteses, princesa. Embora não tivesse nem mesmo um remoto laço genealógico com Mary Stuart, agia como se lhe fosse próxima. Não sei se por uma ser da Escócia e a outra do Estácio, as duas eram muito parecidas. Mary Stuart não ficou redonda como Luiza, mas em compensação não escutou as rodas de samba do Estácio. Mary Stuart nasceu rainha. Luiza nasceu para ser rainha numa outra vida. Apesar das pequenas diferenças, eram irritantemente parecidas. Mary amava as golas, Luiza as detestava. Mary arrastava saias negras pelos aposentos do palácio; Luiza, pelos becos do Estácio. Mary caçava raposas com cachorros; Luiza caçava as dezenas do cachorro. Mary guardava doces numa caixinha de prata; Luiza, numa lata. Mary reinava em nome de Cristo, Luiza tinha um Cristo que reinava na parede da sala. Mary dividia a coroa com a prima; Luiza, uma parca aposentadoria. Mary casou com um rei; Luiza, com um operário. Mary sentava-se num trono; Luiza, numa cadeira Chipendale. Mary era Stuart, Luiza, Correa.
Quando se encontrou com a morte, Luiza pediu-lhe que não a fizesse rainha. Preferiu uma cama, pois estava muito cansada...



obs: texto extraído do meu livro Amor se Faz na Cozinha, publicado pela Editora Bertrand

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Livros, Língua & Amigo

Não sei se por velhice Divina ou se por embaçamento das janelas do céu - pode acreditar, a poluição também chega lá - Deus se cansou de olhar os homens e se recolheu aos livros. Arrastou uma velha poltrona para perto da lareira, esqueceu dos conselhos médicos e desaposentou um maço de cigarros, colocou na vitrola um disco de Chet Baker e tirou da estante o primeiro volume da trilogia de Henry Miller. Sexus. "Latim", pensou o Diviníssimo, carregando o grosso volume para a poltrona.
E ali, entre a primeira baforada e o sopro reticente de Chet, Ele folheou a primeira página. O livro não era em latim. "Como? Que raio de língua é essa?" Deus se perguntou, já desconfiado de que o tempo que havia criado lhe passara a perna. O tempo correra e o Altíssimo ficara para trás, acreditando que a onipresença e a oniciência estavam para além das transformações da linguagem. Se Ele tivesse dado ouvidos a Crocce, ou a São Tomas de Aquino ou se tivesse lido Crátilo, de seu amigo Platão, com mais atenção, decerto não estaria pagando tal mico. Mas você sabe, Deus é Deus e nem o Diabo o convence do contrário.
Não sei se por desconsolo da idade ou se por carência afetiva que nenhuma Santíssima supriria, Deus chorou como um bebê. Esqueceu que era Deus e caiu no melodrama. "Não posso morrer sem ler Henry Miller...", o Diviníssimo choramingou com o rosto enterrado numa almofada.
Se foi um acaso da Mortíssima bater perna no lugar errado mas na hora certa ou se tudo não passou de um acordo entre Ele e ela, isso eu não sei. O que sei é que hoje, meu amigo Haroldo Netto, o melhor tradutor do mundo, foi chamado às pressas para socorrer o Altíssimo...

Sábado, 13 de Junho de 2009

A Visita de Dona Inveja

Anunciou sua visita sem nenhuma cerimônia. Não esperou convite e foi se convidando. Eu, cá do meu canto, não disse que sim nem que não: esperei que o interesse se extinguisse e aquela visita, que não foi convidada, desistisse de vir.
Não dei ouvidos aos meus fantasmas aflitos a me pedirem para que eu fechasse todas as portas e janelas, e dependurasse um cartaz no portão: CUIDADO! CÃES FEROZES!
Os dias se passaram e eu já tinha quase me esquecido dela, quando ela chegou. Mas uma vez não levei em conta os sinais de mau agouro. Fingi que não vi a sombra velando o olhar do motorista do taxi que a trouxera. Tapei os ouvidos para o canto de uma coruja em pleno meio-dia. Fechei os olhos para o sol que correu a se esconder atrás de uma nuvem e para o cadáver de um sapo que o táxi atropelara bem defronte do portão. Abri a porta e deixei que a Inveja entrasse. Entrou humilde, fingindo castidade. Distribuiu presentes e sorrisos numa boca sem dentes. Olhou para todos os cantos da casa. Sentou-se na sala e quis saber coisas. Eu bem que sabia que as suas perguntas seriam comidas por um gato. Não dei importância e deixei que a Senhora Inveja comesse da minha comida e depois a vomitasse, proclamando propiedade do vômito. Lembrei de Vitalina me dizendo que "a Inveja é uma senhora sem rosto, corpo, alma, e pousada, que vaga pelo mundo roubando a face e o lar do alheio". No momento em que se despediu, vi o meu rosto refletido na sua face distorcida. A máscara apertada não lhe coubera direito. O meu sorriso não cabia na sua boca sem dentes. O meu olhar não encaixou-se nos dois buracos do seu crânio... Partiu, deixando no ar o cheiro fétido da mentira. Um aroma que de tão medonho, assustou a fumaça negra do ônibus que a levou de volta para os pântanos da perfídia.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Blood & Moon

Quando a lua avermelhava no céu, Luiza catava ervas no terreiro, defumava a casa e as meninas (na casa só moravam mulheres). Cerrava as janelas, acendia velas e rezava o terço. Ñessa noite não dormia. Vigiava o mundo. Velava os vivos. Ouvia vozes que ninguém mais ouvia. Dentro da casa, as meninas rezavam.
Do lado de fora, os vizinhos espiavam. Luiza sabia que no dia seguinte as crianças da rua a acompanhariam com troças. Não ligava. "São anjos", ela dizia. Luiza compreendia a inocência dos anjos e sabia que eles nada podiam fazer. "A inocência às vezes é estúpida", filosofava com os seus botões. Sua mãe lhe ensinara a temer a hemorragia da lua. Dissera que era um aborto. A lua vermelha abortava pragas. Quando ela abortava, o Canhoto enchia a pança de maldade. Deus não podia fazer nada. Estava a léguas de distância, brincando com os anjos. A terra ficava entregue ao Canhoto e a Lua, à sua enfermidade. Luiza quis saber por quê a Lua, que era tão forte, ficava fraca. A mãe respondeu: "Para mostrar como os homens são estúpidos.". Luiza acatou de bom grado a resposta.
Seguiu os seus dias tomando conta do céu. A princípio, quando ainda acreditava na reversão da estupidez, bem que tentou avisar aos vizinhos que o céu prometia catástrofes. Ninguém ouviu. Então ela viu a Lua ficar vermelha antes da primeira guerra, antes do mar engolir o Titanic, antes da segunda guerra, antes do massacre no Vietnã, e antes de muitas epidemias. Como ninguém lhe deu ouvidos, preferiu silênciar e guardar para si os prenúncios das tragédias. Concluiu que a estupidez é coisa que não se reverte. "Ë obra do canhoto", definiu. Morreu com o terço na mão, pedindo à Mãe que velasse pelos estúpidos. Se na hora de se encontrar com a Morte, viu ou não uma outra Lua Vermelha, isso ficou entre ela e a Mortíssima. Só sei que não faz muito tempo, a Lua deu de sangrar no céu...

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Zé e uma casa de campo no Sumaré.

Em meio a avenidas paulistanas,
entre faróis, buzinas e antenas,
uma casa na rua Petrópolis.
Defronte, uma praça.
Ao lado, um chinês maluco.
Dentro, ah, dentro... um campo
de Barbara, Tonico, Júlia e .
Uma casa de campo no topo do Sumaré?
Sim, pois é.


Deus devia estar sem amigos quando criou a morte...
obs: na foto, Ana Maria Santeiro & Zé.

Sábado, 16 de Maio de 2009

Quando Uma Cidade Faz Anos

Quando nos últimos meses do ano de 1963 a tubulação de gás da minha rua, Paissandú, foi para os ares num piscar de olhos, desconfiei que não vinha boa coisa pela frente. O odor insuportável de gás putrefato era de tal forma intenso que Vitalina, minha avó, afirmou categoricamente tratar-se da "catinga do Tinhoso" a anunciar sua chegada.
Eu, que nunca tinha encarado o Capeta olho no olho, confesso que de dentro do imaginário realista mágico dos meus doze anos passei a nutrir uma mórbida curiosidade quanto a sua aparência. Ao perceber este súbito interesse, vó Vitalina deu de defumar a rua e os seus buracos com ervas, alho e sal.
A sua convicção de que o Pai da Mentira emergeria das profundezas da Terra era tanta que logo arregimentou algumas amigas, rezadeiras poderosas, para juntas iniciarem uma vigília na boca do extenso buraco que, como uma serpente infernal, se dirigia ao imponente Palácio da Guanabara.
Quando o seu plantão na vigília era interrompido para o almoço, Vitalina aproveitava a ocasião para me dar maiores esclarecimentos sobre as artimanhas e nomes adotados pelo Senhor das Trevas, desde que o mundo é mundo. E foi entre garfadas de bife e batata frita que vim a saber que o tal Coisa-Ruim se chamou Nero, Calígula, Franco, Mussolini, Hitler, Salazar...e até Pilatos.
Das artimanhas de Belzebu, Vitalina narrou o estranho poder que ele tinha de provocar intrigas, delações, injustiças, pestes e feiúra.
As injustiças, delações e pestes eu já tinha presenciado nas ventas do buraco: o pai de minha amiga Vânia, um historiador amante de Marx, foi despedido do emprego da noite para o dia; o almirante que morava no quinto andar, inimigo número um das crianças e adolescentes do prédio, foi eleito síndico numa assembléia muito suspeita; e um surto de hepatite atingiu quase todos nós.
Sim, eu mesma já podia sentir na carne os primeiros sinais "visíveis" da devastação que viria pela frente...Não sei se pelo medo do Rabudo (que a essa altura eu já não queria conhecer) ou mesmo pela hepatite, o corpo e a alma amarelaram. E amarelaram tanto que acabaram amarelando toda a casa.
Meu pai, amante dos discursos inflamados e fiel defensor dos pobres e oprimidos, deu de falar baixo, deu de esconder os seus preciosos livros e a sobressaltar-se a cada toque da campainha.
O gás exalado pelo buraco da rua acabou chegando ao oitavo andar do prédio e me apresentando o primeiro suicida, a primeira vítima do Mofento. Se não tivesse passado quarenta anos, certamente eu ainda saberia o nome do morador bonito e calado, do 802, e ainda tremeria pela minha transgressão e bravura de ter roubado o volume Obras Escolhidas de Pablo Neruda, que solitário jazia no chão, abaixo do corpo a balançar amarrado ao lustre e marcado por um lacônico bilhete - que a polícia nunca leu - em que se lia: Confesso Que Vivi.
Quando a rua Paissandu foi tomada por militares no final de março de 1964, não me surpreendi. Vitalina já havia me alertado para a chegada do Senhor das Trevas.





Obs : hoje, passados tantos anos, no dia em que Nova Friburgo, a cidade que escolhi para morar, comemora seus cento e tantos anos de existência, constato que o Tinhoso continua a exalar fedor (e atos) pelas pequenas e grandes cidades do meu país. Hoje, 16 de maio de 2009, o jornal da nossa cidade foi vilmente obrigado a podar, castrar, impedir, calar as palavras de um jovem cronista, escritor e filho muito querido, cujo crime consistiu em criticar um aumento abusivo acontecido na cidade. De mãos atadas, o jornal A Voz da Serra silenciou a fala do poeta. Até quando viveremos sob o fedor da intolerância e ditadura do vil capital que sem usar armas consegue ser mais letal que a própria Mortíssima?





obs2: na foto, Daniel e Ronaldo.



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Livrarias são janelas. Livros olham o mundo.Livrarias libertam. Livros revolucionam.